O médico escocês Robert Reid Kalley
Alderi Souza de Matos
Introdução
Ao escreverem sobre a implantação da fé
protestante em países do terceiro mundo, os estudiosos têm feito uma
distinção que aponta para duas modalidades desse fenômeno: o
“protestantismo de imigração”, representado por imigrantes protestantes
normalmente procedentes da Europa central e setentrional, os quais
tenderam a restringir as suas práticas religiosas ao seu próprio grupo
étnico, e o “protestantismo de missão”, representado por indivíduos e
organizações da Europa e dos Estados Unidos que trabalharam naqueles
países com a intenção expressa de angariar adeptos e plantar igrejas
entre a população nacional. O médico escocês Robert Reid Kalley é um
notável pioneiro dessa segunda modalidade, tendo sido o primeiro
missionário protestante a atuar com êxito em várias regiões de língua
portuguesa dos dois lados do Atlântico, apesar dos formidáveis
obstáculos que teve de enfrentar. Personagem controvertido e polêmico,
caracterizado por um espírito empreendedor e independente, Kalley
exerceu uma influência profunda e duradoura sobre o protestantismo
luso-brasileiro, em diferentes aspectos.
Apesar de Kalley ter se tornado uma
figura quase lendária na história do protestantismo brasileiro, alguns
aspectos da sua vida, obra e peculiaridades são ainda pouco conhecidos.
Daí a oportunidade e relevância de reconsiderar esse pioneiro, visto ter
transcorrido recentemente o sesquicentenário da sua chegada ao Brasil
(2005). O artigo começa por mostrar as circunstâncias que levaram Kalley
da sua Escócia natal à pequena Ilha da Madeira, no Oceano Atlântico. Em
seguida, observa-se como a tremenda oposição surgida contra o
missionário e seus conversos teve um desfecho não antecipado nem
pretendido pelos perseguidores: a difusão da fé evangélica em outras
terras. São apontados os fatores que trouxeram Kalley ao Brasil, bem
como as influências sofridas e as mudanças experimentadas por ele ao
longo da sua caleidoscópica história de vida. Conclui-se com uma
avaliação das principais contribuições do personagem, bem como de
algumas de suas idiossincrasias pessoais e teológicas.[1]
1. De Glasgow à Ilha da Madeira
Robert Kalley nasceu em Mount Florida, um
subúrbio de Glasgow, Escócia, no dia 8 de setembro de 1809. Foi
batizado aos oito dias de vida na tradicional e antiga Igreja da Escócia
(Presbiteriana).[2] Seu pai, um próspero comerciante e dedicado membro
da igreja, faleceu um ano mais tarde. Sua mãe voltou a casar-se, mas
morreu em 1815, deixando o filho para ser criado pelo padrasto. Este
também era membro da igreja e desejou que o jovem seguisse a carreira
ministerial. Aos vinte anos, em agosto de 1829, Robert diplomou-se
cirurgião e farmacêutico pela Faculdade de Medicina e Cirurgia de
Glasgow, tendo feito os seus estudos práticos no Hospital Real da mesma
cidade. Aceitou um emprego de médico de bordo em duas viagens a Bombaim,
na Índia, tendo a oportunidade de visitar muitos portos, inclusive
Funchal, na Ilha da Madeira. Sentiu em primeira mão a grande necessidade
de médicos no Oriente.[3]
Em 1832, Kalley começou a praticar a
medicina em Kilmarnock, a cerca de 30 km de Glasgow, onde se destacou
pela sua competência e veio a prosperar financeiramente. Desde a
juventude havia sido um incrédulo e agnóstico, tendo sido influenciado
pelos escritos do deísta Thomas Paine (1737-1809) e outros autores.
Todavia, a atitude de uma paciente cristã, que enfrentou grandes
sofrimentos com serenidade e fé, bem como as conversas que teve com ela,
levaram o jovem médico a reconsiderar as asserções do cristianismo. O
estudo da Bíblia, especialmente das profecias relativas aos judeus e à
Palestina, levou-o à conversão e a um interesse pela evangelização dos
judeus. Outro fato marcante daqueles anos de transição foi a morte de
Robert Morrison (1782-1834), missionário de origem escocesa e
presbiteriana, ligado à Sociedade Missionária de Londres, que foi o
pioneiro protestante na China (Cantão).
Kalley sentiu que a morte de Morrison
representava um desafio e um chamado para ele. Ofereceu os seus serviços
à Junta de Missões da Igreja da Escócia como médico missionário e
evangelista, mas a junta não o aceitou pelo fato de a China não estar
incluída entre os seus campos missionários. Buscou então a Sociedade
Missionária de Londres[4], que em fins de novembro de 1837 o admitiu
como médico missionário para a China. Foi instruído a embarcar para o
campo em 1839, devendo fazer, no ínterim, novos estudos médicos, além de
estudos teológicos. Fechou o seu consultório médico e matriculou-se na
Universidade de Glasgow, obtendo o grau de doutor em medicina em abril
de 1838. Todavia, dois meses após a sua nomeação como missionário, ele
havia ficado noivo de Margaret Crawford, de Paisley, cuja frágil saúde a
desqualificava para o trabalho na China. A nomeação foi suspensa até
uma ocasião oportuna.
Embora a China ainda estivesse nos seus
planos, a deterioração da saúde da esposa fez com que Kalley planejasse
levá-la por uns tempos para a Ilha da Madeira, cujo clima o havia
encantado. Chegaram a Funchal no dia 12 de outubro de 1838. Naquela
cidade havia uma grande colônia de escoceses ligada à indústria do vinho
e mais tarde Kalley foi eleito presbítero da Igreja Presbiteriana
Escocesa ali existente. Logo que chegou, sentiu-se desafiado a empregar
as suas aptidões e recursos para auxiliar a população pobre e analfabeta
da ilha, e anunciar-lhe o evangelho. Resolveu estudar a língua
portuguesa e seguiu para Lisboa, onde, em 17 de junho de 1839, depois de
ter sido examinado pela Escola Médico-Cirúrgica daquela cidade, foi
habilitado para exercer a medicina nos territórios de Portugal. Seguiu
então para Londres, para contatos com a Sociedade Missionária, à qual
pedira que o ordenasse pastor e o nomeasse como seu agente na Ilha da
Madeira. A Sociedade aprovou a sua ordenação, mas não o aceitou como
agente por ainda não ter trabalho naquela ilha. Apesar de não ter feito
estudos formais de teologia, sendo aparentemente um autodidata nessa
área, Kalley foi aprovado nos exames e ordenado no dia 8 de julho de
1839 por seis ministros presbiterianos ligados à Sociedade. Estes agiram
em sua capacidade individual, sem representar uma denominação.[5] Em
outubro do mesmo ano, ele retornou à Ilha da Madeira.
Em 1840, Kalley abriu um pequeno hospital
com doze leitos em Funchal, com farmácia e consultório grátis para os
pobres. Quase cinqüenta pessoas o consultavam diariamente. As consultas
eram precedidas por um pequeno culto em que ele lia e explicava as
Escrituras e fazia uma oração. Seguia a mesma prática quando visitava os
pacientes nos seus lares. Ao mesmo tempo, utilizando recursos próprios e
de amigos, abriu escolas diurnas para as crianças e noturnas para os
adultos em vários pontos da ilha, nas quais as pessoas aprendiam a ler e
eram instruídas nas Escrituras. Nessas escolas mais de 2000 pessoas
aprenderam a ler, nos seis anos em que elas funcionaram. Nesse período,
Kalley compôs os seus primeiros hinos e escreveu os seus primeiros
tratados evangélicos para o povo. Milhares de exemplares das Escrituras
foram distribuídos. Aos domingos, grandes grupos reuniam-se nas
montanhas para ouvir a pregação do Evangelho e cantar os apreciados
“hinos calvinistas”.[6]
2. O espectro da perseguição
A princípio, as autoridades elogiaram o
Dr. Kalley pelas suas atividades filantrópicas, registrando em ata, em
maio de 1841, a sua gratidão ao “bom doutor inglês”. O povo,
reconhecendo os seus serviços, chegou a denominá-lo “o santo inglês”. O
ano de 1842 foi particularmente frutífero no trabalho educacional e
evangelístico. Porém, no final de janeiro do ano seguinte a hostilidade
latente do clero deu início a um movimento anti-herético que, com a
cooperação das autoridades civis, rapidamente assumiria proporções
assustadoras.[7] Vale lembrar que essas reações antiprotestantes
resultaram em parte do caráter conservador de uma comunidade isolada,
religiosamente homogênea, como a pequena Ilha da Madeira. Por outro
lado, a igreja católica européia vivia um de seus períodos mais
conturbados, em que o forte sentimento tridentino e ultramontano da
Contra-Reforma fora reforçado ainda mais pela Revolução Francesa e suas
conseqüências. O papa então reinante, Gregório XVI (1831-1846),
caracterizou-se por seu espírito reacionário e intolerante,
manifestando-se fortemente contra os valores da modernidade, tais como a
democracia, a liberdade religiosa e a separação entre a Igreja e o
Estado.[8] Essa atitude não sofreria alteração durante o longo
pontificado do seu sucessor, Pio IX (1846-1878).
Na Ilha da Madeira, as autoridades
sucessivamente ordenaram o fechamento das escolas evangélicas, proibiram
o Dr. Kalley de exercer a medicina e de realizar cultos domésticos e,
invocando uma lei inquisitorial de 1603, o prenderam por seis meses sem
direito a fiança (julho de 1843 a janeiro de 1844). Ele tinha a
permissão de receber três visitantes de cada vez, mas não podiam cantar
hinos e ler as Escrituras. Sob a liderança do cônego Carlos Telles de
Meneses, houve um grande esforço no sentido de suprimir o movimento
evangélico, do qual resultou a prisão de muitos crentes sob acusações de
apostasia, heresia e blasfêmia. Uma pobre mãe de sete filhos, Maria
Joaquina Alves, ficou presa durante dois anos e meio (janeiro de 1843 a
maio de 1845). Foram terminantemente proibidas a posse e a leitura da
Bíblia, embora a versão distribuída fosse a do padre Antônio Pereira de
Figueiredo. Após a sua libertação, o Dr. Kalley prosseguiu com o seu
trabalho de modo mais limitado e cauteloso, concentrando-se na
localidade de Santo Antônio da Serra, onde aos domingos chegavam a
reunir-se seiscentas pessoas. Teve o apoio incondicional da Igreja
Escocesa de Funchal e de um missionário recém-chegado, o Rev. William
Hepburn Hewitson.[9] Em 23 de março de 1845, na casa pastoral da Igreja
Escocesa, a Ceia do Senhor foi celebrada pela primeira vez em português
segundo a liturgia presbiteriana. Pouco depois, em 8 de maio, foi
organizada sob a liderança do Rev. Hewitson a primeira igreja
presbiteriana portuguesa, com mais de sessenta membros comungantes,
sendo eleitos vários presbíteros e diáconos.
Após passar alguns meses na Escócia, onde
falou sobre as suas experiências à Assembléia Geral da Igreja da
Escócia em agosto de 1845, Kalley e sua esposa retornaram à Ilha da
Madeira. Nos meses seguintes se desencadearam novas perseguições com
fúria ainda maior. Os evangélicos continuaram sendo presos, espancados,
apedrejados e alguns tiveram suas casas queimadas. Ressoavam na imprensa
e outros meios clamores de morte contra os protestantes. Uma série de
artigos aparecidos no jornal O Imparcial foi publicada sob o título
“Revista histórica do proselitismo anticatólico exercido na Ilha da
Madeira pelo Dr. Roberto Reid Kalley, médico escocês, desde 1838 até
hoje”. Kalley escreveu uma resposta a esse panfleto acusatório contra os
evangélicos, resposta essa que foi publicada em Lisboa e circulou ali e
na Ilha da Madeira em julho de 1846. Essa controvérsia aberta parece
ter sido o estopim da explosão final, no mês seguinte.[10]
No dia 2 de agosto, um bando chefiado
pelo cônego Telles atacou a casa de algumas senhoras inglesas onde cerca
de quarenta madeirenses, na maior parte mulheres, haviam se reunido
para o culto. Vidros e portas foram quebrados, mas a chegada da polícia
impediu que fosse causado dano físico às pessoas reunidas. Nos dias
seguintes, muitos “calvinistas” no interior da ilha tiveram suas casas
atacadas e sofreram toda sorte de indignidades. O Rev. Kalley tornou-se o
alvo principal dos perseguidores e multiplicaram-se ferozes ameaças de
morte contra ele. Seus apelos ao cônsul britânico e às autoridades
locais foram recebidos com frieza. Na manhã do dia 9, um domingo, a Sra.
Kalley foi levada sob disfarce para a residência do cônsul, que havia
ido para a sua casa de campo. Disfarçado como uma mulher enferma, o Dr.
Kalley foi conduzido em uma rede para uma chácara e dali, antes do raiar
do dia 9, foi levado para o navio inglês “Forth”, ancorado na baía de
Funchal. Sua casa, móveis, equipamento médico, biblioteca e manuscritos
foram todos destruídos em um incêndio, cuja fumaça ele pôde ver do
navio. O hospital foi saqueado e muitas das escolas do interior foram
queimadas, bem como todas as Bíblias e literatura evangélica que foram
encontradas.
Naquela mesma noite, o navio partiu para
Trinidad, nas Antilhas (Caribe), onde o Dr. Kalley encontrou a esposa e,
juntos, seguiram para a Inglaterra. Nas semanas seguintes à partida do
missionário, seus discípulos, acossados, ameaçados e maltratados, também
tiveram de fugir para salvar a vida. Os incidentes da Madeira
coincidiram com um plano inglês de recrutar trabalhadores para as ilhas
de Trinidad, Antigua e St. Kitts, e alguns navios ingleses em busca de
trabalhadores haviam chegado a Funchal naquele mesmo mês. No dia 23,
duzentos refugiados religiosos partiram a bordo do “William”, levando
apenas a roupa do corpo. Dias depois, mais de quinhentos os seguiram no
“Lord Seaton” e nos meses seguintes muitos outros abandonaram os seus
lares, buscando liberdade de culto do outro lado do oceano. Estima-se
que mais de dois mil evangélicos deixaram a sua ilha na perseguição de
1846.
Surpreendentemente, o movimento
evangélico na Madeira não foi inteiramente suprimido e, em 1853, uma
nova leva de emigrantes calvinistas partiu para o Novo Mundo. A partir
de 1875, em um clima de maior tolerância e com o apoio da Igreja da
Escócia, várias igrejas presbiterianas foram formadas naquela ilha, que
continuaram em existência ao longo do século 20.[11] Com o apoio de
igrejas norte-americanas, muitos dos madeirenses que se fixaram nas
Antilhas, bem como os emigrados de 1853, foram para os Estados Unidos,
estabelecendo-se nas cidades de Springfield e Jacksonville, no Estado de
Illinois.[12] As igrejas que formaram eventualmente filiaram-se à
Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América, a Igreja do Norte
(PCUSA), e deram uma importante contribuição para o início dos trabalhos
congregacional e presbiteriano no Brasil.
3. Interregno e transferência para o Brasil
Depois de passar algum tempo na Escócia e
na Inglaterra, Kalley trabalhou como médico missionário durante dois
anos na Ilha de Malta e outros dois na Palestina (1850-1852). Em Safed,
organizou uma pequena igreja na qual metade dos participantes era
constituída de judeus convertidos e a outra metade de ex-muçulmanos e
nestorianos.[13] Sua primeira esposa, Margaret, veio a falecer no início
de 1852. No final daquele ano, ele contraiu segundas núpcias com Sarah
Poulton Wilson (1825-1907), a quem conhecera na Palestina. Sarah nasceu
em Nottingham, Inglaterra, sendo sobrinha pelo lado materno de Samuel
Morley, rico industrial e filantropo, membro destacado do Parlamento
Britânico e líder da igreja congregacional.[14] A família também tinha
ligações com os Irmãos de Plymouth através de outro tio de Sarah, John
Morley.[15]
Sarah recebeu uma educação esmerada e
cultivou muitos dotes artísticos, revelados mais tarde na poesia, na
pintura e na música. Foi grande defensora do nascente movimento das
Escolas Dominicais. Seu trabalho evangélico teve início em Torquay, onde
dirigiu uma classe bíblica que se tornou instrumento para a conversão
de muitos jovens. Ela visitou a Palestina em março de 1852 em companhia
de um irmão mais novo, que veio a falecer de tuberculose em Beirute.[16]
Nessa viagem Sarah conheceu o Dr. Kalley, com o qual veio a casar-se em
14 de dezembro do mesmo ano. Esse casamento contribuiu para que Kalley
eventualmente se afastasse de suas raízes presbiterianas e se voltasse
para o congregacionalismo. Devido às suas extraordinárias qualificações,
Sarah deu contribuições à obra do esposo que exigem uma análise mais
detalhada do que é possível neste estudo.
No inverno seguinte (1853-1854), Kalley,
acompanhado da esposa, foi visitar os amigos madeirenses em Illinois.
Passando por Nova York, esteve na Sociedade Bíblica Americana, onde
conversou a respeito dos refugiados portugueses. Poucos dias depois, o
dirigente da Sociedade Bíblica recebeu uma carta do Rev. James Cooley
Fletcher (1823-1901),[17] pastor presbiteriano que trabalhava no Rio de
Janeiro para a Sociedade de Amigos dos Marinheiros Americanos,
pedindo-lhe o envio de alguns refugiados madeirenses para trabalharem no
Brasil como colportores da Sociedade Bíblica. Kalley foi informado
sobre isso e decidiu ele mesmo vir para o Brasil no ano seguinte.
O casal Kalley partiu de Southampton em 9
de abril de 1855, chegando ao Rio de Janeiro no dia 10 de maio. Por
dois meses e meio se hospedaram em hotéis, mas não encontraram um local
adequado onde pudessem residir e iniciar o trabalho evangélico. No final
de junho visitaram Petrópolis e ficaram bem impressionados com a
cidade. Viram que havia melhor possibilidade de iniciar o trabalho
missionário ali do que no Rio de Janeiro, graças ao auxílio que poderiam
receber dos colonos alemães. Souberam que uma bela propriedade
(Gernheim = lar muito amado) situada em uma encosta do Bairro Suíço
ficaria disponível em outubro. Mudaram-se para Petrópolis em fins de
julho, hospedando-se em um hotel. Tendo feito amizade com a família do
embaixador americano, Sr. Webb, que ocupava Gernheim, foi-lhes permitido
iniciar ali uma escola dominical. Na tarde do dia 19 de agosto, a Sra.
Kalley iniciou a classe dominical com as crianças da casa e de uma
família vizinha. Leram a história de Jonas, cantaram hinos[18] e oraram.
Assim nasceu a primeira Escola Dominical do Brasil. Algum tempo depois
foi criada uma classe de adultos, dirigida pelo Rev. Kalley. Em 15 de
outubro o casal mudou-se para Gernheim. A escola dominical cresceu e no
ano seguinte surgiram classes em alemão, inglês e português, para
crianças de oito anos para cima.
De agosto de 1855 a maio de 1856, o Rev.
Kalley escreveu várias cartas aos irmãos de Illinois, convidando-os para
virem ajudá-lo no Brasil. Em dezembro de 1855 chegou William D. Pitt,
que havia sido aluno de escola dominical de D. Sarah na Inglaterra, e em
agosto de 1856 vieram Francisco da Gama, Francisco de Souza Jardim e
Manoel Fernandes, com suas famílias. No dia 10 de agosto daquele ano, na
casa alugada por esses crentes no morro da Saúde, o Rev. Kalley oficiou
pela primeira vez a Ceia do Senhor, com a presença de dez pessoas. O
missionário viu desde o início a importância da literatura e convidou o
Sr. Gama para trabalhar como colportor, o que este fez com muita
eficiência, vendendo Bíblias e livros evangélicos. Algumas publicações
foram encomendadas de Lisboa e outras produzidas pelo próprio Dr.
Kalley. Ele também traduziu a famosa obra de John Bunyan, “A Viagem do
Cristão” (O Peregrino), publicando-a no Correio Mercantil (outubro a
dezembro de 1856) e depois em forma de livro. Também escrevia artigos
religiosos nesse periódico. Ao mesmo tempo, desde que chegou a
Petrópolis, Kalley procurou relacionar-se com as autoridades civis,
inclusive com o imperador Pedro II, do qual se tornou amigo. Como seu
vizinho, este foi visitá-lo várias vezes para ouvir sobre as suas
viagens através da Palestina.
O casal Kalley partiu para a Inglaterra
no dia 17 de janeiro de 1857, a fim de visitar uma tia de Sarah que se
achava gravemente enferma. De Londres, onde ficaram por alguns meses, o
Rev. Kalley enviou para o Rio de Janeiro uma grande quantidade de
literatura. Chegaram de volta ao Brasil em 9 de outubro. Extremamente
cauteloso após as perseguições sofridas na Ilha da Madeira, Kalley
trabalhou dentro dos limites impostos pela lei brasileira, adotando como
modelo básico de evangelização o “culto doméstico”.[19] No dia 8 de
novembro, foi batizado o primeiro crente em Petrópolis, o português José
Pereira de Souza Louro. No Rio, havia reuniões em português na casa de
Francisco da Gama e em inglês na residência de William Pitt. Nos meses
seguintes, começaram a surgir artigos na imprensa do Rio revelando
preocupação com a propaganda protestante e a distribuição de “Bíblias
falsas”. Um motivo a mais de inquietação para os líderes católicos eram
as discussões sobre a instituição do casamento civil e outras medidas
liberalizantes do governo imperial.
4. O congregacionalismo brasileiro
Em 11 de julho de 1858, Kalley batizou o
seu primeiro converso brasileiro, Pedro Nolasco de Andrade, no Rio de
Janeiro. Esse dia passou a ser considerado como a data da organização da
“Igreja Evangélica”, mais tarde denominada Igreja Evangélica Fluminense
(18-09-1863), para distingui-la da igreja presbiteriana organizada pelo
Rev. Ashbel Green Simonton no início de 1862. Em Petrópolis, porém, não
se chegou a organizar uma igreja, embora houvesse reuniões domésticas
semanais, e os crentes ali batizados foram incorporados à igreja do Rio
de Janeiro. A igreja do bairro da Saúde foi a primeira comunidade
evangélica de língua portuguesa a surgir no Brasil, isto é, a primeira
igreja “de missão” que conseguiu lançar raízes permanentes no país.
Todas as outras igrejas existentes naquela época ou anteriormente eram
constituídas de estrangeiros.[20] Kalley também continuou a exercer suas
atividades como médico, prestando assistência gratuita aos pobres e
oferecendo os seus serviços à comunidade, como ocorreu durante uma
epidemia de cólera em Petrópolis no mesmo ano da sua chegada ao Brasil.
Outro marco importante do ministério do
Dr. Kalley foi o batismo de duas senhoras de alta posição, Gabriela
Augusta Carneiro Leão e sua filha Henriqueta Soares do Couto, ocorrido
em Petrópolis no dia 7 de janeiro de 1859. Dona Gabriela era irmã do
Marquês do Paraná e do Barão de Santa Maria. Elas haviam sido
evangelizadas pelo crente pioneiro José Pereira de Souza Louro e mais
tarde se transferiram para a igreja presbiteriana, na qual permaneceram
até o final da vida. Esse batismo parece ter contribuído para o
surgimento de pressões contra o trabalho do missionário, que em 26 de
maio daquele ano foi proibido de clinicar pelo subdelegado de
Petrópolis.
Mediante pressão do núncio, o governo
imperial fez chegar à Legação Britânica um comunicado com diversas
queixas contra Kalley, tais como propaganda de doutrinas contrárias à
religião do Estado e tentativa de conversão de católicos à fé
protestante. O missionário formulou uma série de quesitos sobre as suas
atividades e os apresentou simultaneamente aos melhores juristas da
época, os Drs. Joaquim Nabuco, Urbano S. Pessoa de Melo e Caetano
Alberto Soares. Os pareceres foram altamente satisfatórios e no dia 16
de julho Kalley enviou à Legação Britânica uma resposta ao comunicado do
Ministro do Governo e uma carta particular ao cônsul William Stuart
explicando as suas atividades e os tipos de pessoas que freqüentavam as
suas reuniões. Concluiu que a liberdade por ele exercida estava dentro
dos limites da lei. Acrescentou que, caso o governo insistisse nas suas
tentativas de silenciá-lo, se sentiria na direito de publicar os motivos
para tanto e fazê-los conhecidos em todos os países de onde o Brasil
esperava colonos.[21]
No dia 29 de agosto de 1859, Kalley
defendeu tese na Escola de Medicina do Rio de Janeiro, sendo reconhecido
como médico e autorizado a exercer essa profissão no Brasil. Nesse
ínterim, recebeu forte apoio de brasileiros e alemães de Petrópolis, que
produziram abaixo-assinados em sua defesa.[22] Kalley fez uma segunda
viagem à Inglaterra de agosto de 1862 a agosto de 1863. Pretendia tratar
do joelho que havia ferido em um acidente com o cavalo, procurar uma
pessoa para ajudá-lo no seu trabalho e visitar a Palestina. Antes da sua
partida, a igreja elegeu os seus primeiros presbíteros. Kalley retornou
ao Rio de Janeiro no início de setembro de 1863 e no dia 2 de outubro
foi formalmente eleito pastor da igreja a fim de poder realizar
casamentos religiosos com efeitos civis, uma importante conquista dos
protestantes brasileiros.[23] Em novembro de 1865, preocupado com o fato
de um membro da sua igreja possuir escravos, Kalley fez uma “exortação”
expondo seu ponto de vista contrário à escravidão. Seu primeiro
pastor-auxiliar foi o Rev. Richard Holden (1828-1886), de março de 1865 a
julho de 1871.[24] Isso permitiu a Kalley fazer uma terceira viagem
mais prolongada à Europa e à Palestina, ausentando-se por dois anos e
meio (dezembro de 1868 a junho de 1871). Em fins de 1873, o missionário
foi para Recife, onde fundou a Igreja Evangélica Pernambucana, cujo
primeiro pastor residente foi o Rev. James Fanstone (1851-1937), pai do
Dr. James Fanstone (1890-1987), fundador do Hospital Evangélico Goiano,
em Anápolis.
Em 31 de dezembro de 1875, foi eleito
co-pastor da Igreja Fluminense o Rev. João Manoel Gonçalves dos Santos,
um membro da igreja que havia estudado desde 1872 no “Pastor’s College”,
de Charles H. Spurgeon, em Londres. Ele haveria de pastorear a igreja
por quase quarenta anos. Estando mais livre das preocupações do trabalho
pastoral, o Rev. Kalley pode dedicar-se à preparação de uma súmula das
doutrinas aceitas pela Igreja Evangélica Fluminense, que recebeu o
título de “Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo” e
foi publicada em 1876. No dia 2 de julho daquele ano, após o acréscimo
de um artigo sobre a natureza de Deus (atual artigo 4), a igreja aceitou
formalmente os 28 artigos, que são até hoje a base doutrinária dos
congregacionais brasileiros. Em novembro de 1880, o governo imperial
haveria de sancionar tanto os artigos orgânicos (estatutos) da igreja
quanto a sua base doutrinária.
O Dr. Kalley partiu definitivamente para a
Escócia no dia 10 de julho de 1876, vindo a falecer em Edimburgo em 17
de janeiro de 1888.[25] Até o seu falecimento, não deixou de
corresponder-se com freqüência com os líderes de suas igrejas no Brasil e
em outros lugares de língua portuguesa (Portugal, Madeira, Trinidad,
Illinois). Foi o pai espiritual e o mentor de toda uma geração de
ministros e missionários que imitaram a sua visão, zelo e dedicação.
Sentiu o desejo de criar uma sociedade missionária não-denominacional
para enviar obreiros ao Brasil, desejo esse cumprido por sua esposa anos
mais tarde, com a criação da sociedade “Help for Brazil” (Auxílio para o
Brasil), precursora da União Evangélica Sul-Americana (UESA).[26]
5. Kalley e os presbiterianos
Como já foi observado, Kalley nasceu na
Igreja da Escócia e manteve ligações com o presbiterianismo durante boa
parte da sua vida. As igrejas que resultaram do seu trabalho na Ilha da
Madeira, onde seus discípulos eram conhecidos como “calvinistas”, bem
como aquelas fundadas por refugiados madeirenses no Caribe e nos Estados
Unidos, foram todas presbiterianas.[27] No Brasil, embora ele tenha
sido o introdutor do congregacionalismo, suas ligações com os
presbiterianos e suas contribuições diretas e indiretas à obra
presbiteriana são dignas de nota.[28]
Em primeiro lugar, houve o relacionamento
pessoal e direto entre Kalley e o pioneiro do presbiterianismo
brasileiro, Ashbel Green Simonton. No mesmo mês em que chegou ao Brasil
(agosto de 1859), Simonton visitou a igreja do bairro da Saúde e
conversou com o Dr. Kalley, que em tom paternal o incentivou e lhe
transmitiu conselhos e advertências.[29] Simonton passou a pregar com
certa regularidade na Igreja Evangélica, até que, no mês de dezembro,
surgiu um conflito entre os dois obreiros. Devido a um mal-entendido,
Kalley sentiu que o colega mais jovem estava invadindo o seu campo de
trabalho e expressou as suas críticas a terceiros, inclusive através de
uma nota anônima. O problema foi resolvido satisfatoriamente quando, ao
ser interpelado, Kalley pediu desculpas por todas as alegações
levantadas, revelando, segundo o testemunho do próprio Simonton, um
espírito profundamente humilde e generoso.[30] Nos anos seguintes,
formaram-se laços muito estreitos entre as duas comunidades evangélicas.
Em 1896, durante o pastorado do Rev. James B. Rodgers, quando o templo
presbiteriano precisou de uma grande reforma, a igreja reuniu-se no
templo da sua congênere durante todo o período das obras.[31]
Kalley também contribuiu com a obra
presbiteriana em um sentido mais amplo, através de pessoas originalmente
ligadas ao seu trabalho. Quatro líderes das igrejas portuguesas de
Illinois foram notáveis missionários presbiterianos no Brasil: Emanuel
N. Pires (1866-1869), Hugh Ware McKee (1867-1870), Robert Lenington
(1868-1886) e João Fernandes Dagama (1870-1891).[32] Pires e McKee foram
dois dos primeiros pastores da Igreja Presbiteriana de São Paulo, por
breve tempo. Todavia, Lenington e Dagama tiveram longos ministérios,
evangelizando extensamente o interior de São Paulo e, no caso de
Lenington, também o Paraná e o sul de Minas. Outro pioneiro extremamente
operoso foi William Dreaton Pitt, um inglês que estudou na escola
dominical de Sarah Kalley em Torquay, trabalhou junto aos portugueses em
Illinois e foi a primeira pessoa a vir para o Brasil em resposta a um
apelo de Kalley. Foi um dos fundadores da Igreja Evangélica Fluminense e
um dos quatro primeiros presbíteros daquela igreja. Mudando-se para São
Paulo, onde trabalhou no comércio, associou-se aos presbiterianos,
tornando-se um valioso cooperador do Rev. Alexander Blackford. Faleceu
em 1870, poucos meses após a sua ordenação ao ministério. O ministro
presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição (1822-1873), ex-sacerdote e
primeiro pastor protestante de nacionalidade brasileira, trabalhou
durante oito meses em 1867 e 1868 nas igrejas portuguesas de Illinois,
com as quais se correspondeu até o final da sua vida.
Outros elementos ligados a Kalley que
prestaram o seu concurso à obra presbiteriana no Brasil foram
colportores, os mais destacados dentre eles tendo sido Manoel Pereira da
Cunha Bastos, que precedeu o Rev. Blackford em São Paulo, e Manoel José
da Silva Viana, fundador da igreja congregacional em Recife e
colaborador do Rev. John Rockwell Smith. O português Bastos, um
ex-diácono da Igreja Evangélica Fluminense, tornou-se colportor da
Sociedade Bíblica Americana e foi enviado a São Paulo pelo Rev.
Simonton, poucos meses antes da chegada de Blackford. Evangelizou um
patrício, José Maria Barbosa da Silva, seu vizinho à rua Aurora, que por
sua vez foi instrumento para a conversão dos jovens portugueses Antônio
Bandeira Trajano e Miguel Gonçalves Torres, dois dos primeiros pastores
presbiterianos nacionais.[33] Um último exemplo de contribuição
congregacional ao presbiterianismo brasileiro foram alguns membros das
igrejas de Kalley que se filiaram à igreja presbiteriana, dentre os
quais se destacam as já citadas Gabriela Augusta Carneiro Leão e sua
filha Henriqueta Soares do Couto. Henriqueta veio a casar-se com o
irlandês William Esher e foi membro sucessivamente das Igrejas do Rio e
de São Paulo. Foi mãe do Dr. Nicolau Soares do Couto Esher (1867-1943),
conhecido médico e primeiro presidente da Associação Cristã de Moços do
Rio e de São Paulo.[34] As ligações entre congregacionais e
presbiterianos no Brasil se explicam pelo fato de, por muitos anos,
esses terem sido os únicos representantes do protestantismo missionário
no país, bem como pelas suas afinidades históricas e doutrinárias.
6. Peculiaridades pessoais e teológicas
Ao se avaliar a personalidade e
contribuições desse missionário pioneiro, vários pontos merecem
consideração, a começar do fato de que ele era movido por um profundo
senso de vocação e de compromisso com a evangelização de outros povos.
Ao deixar o conforto de sua terra natal e buscar o bem-estar material e
espiritual desses povos, Kalley procurou identificar-se com as culturas
em que trabalhou, embora não tenha se libertado de vários
condicionamentos que afetavam a maior parte dos missionários europeus e
americanos da época. Um exemplo disso era a sua tendência paternalista,
própria de alguém que se considerava pertencente a uma cultura superior e
que tinha, portanto, algo a transmitir a pessoas menos instruídas. Ele
pagava as contas, administrava os fundos, decidia o que era heresia ou
não, estabelecia as metas e era a instância final de apelação para todos
os problemas,[35] mas não teve muita preocupação em preparar líderes
para substituí-lo. As suas igrejas ficaram excessivamente dependentes
dele e experimentaram pequeno crescimento após o seu afastamento e
morte.
Outra razão para o pequeno crescimento da
obra congregacional foi o isolamento inicial das comunidades, ciosas do
princípio da plena autonomia da igreja local. Cinqüenta e cinco anos
após a criação da Igreja Evangélica Fluminense (1858) havia somente
treze igrejas organizadas no país. Foi só então, em 1913, que os
congregacionais começaram a criar uma estrutura nacional, realizando a
sua primeira convenção geral. Em termos de comparação, os
presbiterianos, cuja primeira igreja foi organizada em 1862, já possuíam
cerca de sessenta comunidades por ocasião da criação do Sínodo (1888) e
em 1910, época da organização da Assembléia Geral, o número de igrejas
haviam subido para 150, apesar das grandes perdas sofridas com o cisma
independente de 1903.
Curiosamente, embora tivesse um forte
sentimento anticatólico, Kalley demonstrou algumas vezes uma atitude
positiva para com certos representantes da igreja majoritária, tendo se
tornado amigo do bispo de Funchal e de um sacerdote culto do Rio de
Janeiro. No Brasil, ao menos por algum tempo, ele não exigiu o rebatismo
dos seus conversos, a não ser que o solicitassem explicitamente.
Todavia, sua “Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do
Cristianismo”, adotada como padrão doutrinário das igrejas
congregacionais no Brasil, parece apontar em seu artigo 25 para o
batismo de adultos somente.[36] Segundo o Rev. James Fanstone, Kalley se
sentia inquieto quanto à validade do seu próprio batismo e no final da
vida teria considerado seriamente a possibilidade de submeter-se ao
batismo por imersão.[37] As noções de Kalley acerca da Ceia do Senhor
são mais zuinglianas do que calvinistas: o sacramento é antes uma
comemoração da morte de Cristo no passado distante e um testemunho ao
mundo do que a alegre celebração da sua presença viva e do seu
sacerdócio atual.[38] Outra característica de Kalley era a sua forte
ênfase à santidade do domingo: ninguém era admitido como membro da
igreja se não o observasse criteriosamente, mantendo-se afastado das
atividades seculares.[39]
Seu uso da medicina e da educação como
meios de serviço cristão e instrumentos para a evangelização continua
válido até hoje. Outras estratégias que utilizou também se revelaram
muito eficazes e exerceram uma influência duradoura sobre o
protestantismo luso-brasileiro: reuniões informais nos lares;
distribuição ampla das Escrituras (na tradução católica do padre
Figueiredo) e de literatura cristã; uso da imprensa diária para a
publicação de artigos e livros (como fez no Rio de Janeiro ao publicar O
Peregrino, de John Bunyan); produção de hinos visando a instrução dos
crentes e a evangelização (hinos esses utilizados por muitas gerações de
evangélicos)[40]; treinamento de líderes leigos como colportores e
evangelistas. Os esforços de Kalley no sentido de ter um bom
relacionamento com as autoridades civis e outros líderes destacados,
especialmente no Brasil, onde chegou a fazer amizade com o próprio
imperador, expandiram os limites da liberdade religiosa e ajudaram a
preparar as condições para a introdução e rápido crescimento do
protestantismo.
Formalmente, Kalley permaneceu um
presbiteriano toda a sua vida. Todavia, a sua personalidade e
experiências contribuíram para torná-lo um obreiro auto-sustentado que
nunca trabalhou sob os auspícios de qualquer denominação ou agência
missionária. Seus conversos da Ilha da Madeira abraçaram o
presbiterianismo nos diferentes países em que viveram graças,
principalmente, ao apoio fiel e decidido da Igreja da Escócia. Todavia,
no Brasil ele veio a adotar a forma de governo congregacional. Isso é
explicado por vários fatores: sua falta de simpatia por estruturas
denominacionais, suas ligações com a Sociedade Missionária de Londres
(majoritariamente congregacional), sua ordenação por um grupo
independente de ministros e o seu casamento com Sarah Wilson, cuja
família tinha fortes laços com essa igreja. Alguns autores chamam a
atenção para uma conexão darbista, visto que um tio de Sarah era filiado
aos Irmãos de Plymouth e o Rev. Richard Holden, um inglês que trabalhou
com Kalley por vários anos no Rio de Janeiro, filiou-se a esse
movimento e criou uma divisão na Igreja Fluminense em torno dessa
questão. Kalley deplorava o anti-eclesiasticismo dos Irmãos e algumas de
suas doutrinas, chegando a escrever oito longas cartas pastorais à
Igreja Fluminense sobre os erros do darbysmo (1878-1879), mas certamente
foi influenciado por seu estilo de vida simples, seu culto singelo e
seu “franco individualismo”.[41]
A teologia de Kalley pode ser descrita
como um tipo de evangelicalismo amplo. Duas expressões significativas
das suas idéias teológicas são os hinos que ele e sua esposa escreveram e
a “Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo”. O
professor Antonio Gouvêa Mendonça sintetizou as concepções do casal
Kalley expressas em seus hinos: Deus ama todos os seres humanos, apesar
dos seus pecados; a resposta a esse amor é individual e voluntária (em
contraste com a doutrina calvinista da predestinação); a salvação não é
definitiva, como no calvinismo ortodoxo, mas está sujeita a quedas; isso
requer uma ética rigorosa que traça uma nítida linha divisória entre o
fiel e o mundo.[42] O referido autor conclui que Kalley era um legítimo
representante do puritanismo escocês mesclado com o wesleyanismo
metodista. A “Breve Exposição” declara em seu artigo 19 que a igreja de
Cristo é composta “de todos os sinceros crentes no Redentor, os quais
foram escolhidos por Deus, antes de haver mundo, para serem chamados e
convertidos nesta vida, e glorificados durante a eternidade”.[43]
Todavia, a maior parte dos artigos poderiam ser aceitos por qualquer
evangélico, reformado ou não. Os elementos específicos do calvinismo,
tais como a soberania de Deus, a eleição divina e a perseverança dos
santos, não são enfatizados.[44]
Apesar das deficiências que possa ter
tido, Kalley ocupa um lugar de honra na história das modernas missões
protestantes. No que diz respeito ao Brasil, ele estabeleceu a primeira
igreja protestante permanente entre os brasileiros de língua portuguesa e
foi instrumento para a abertura das portas para a evangelização do povo
brasileiro. Através de sua amizade com elementos destacados da
sociedade, dos seus métodos de trabalho, de suas consultas a juristas
respeitados e de suas reações a tentativas de intimidação por parte do
clero, ele contribuiu para a ampliação da liberdade religiosa no Brasil,
que veio a ser usufruída por outros missionários e igrejas. Através de
suas práticas evangelísticas, dos cultos domésticos e da escola
dominical, do uso da hinologia, literatura e imprensa, de seus
colportores e conversos que depois se tornaram presbíteros, pastores e
evangelistas em outras igrejas, Kalley exerceu uma profunda influência
sobre os mais diferentes aspectos do protestantismo nacional. Em
especial, seu modelo de evangelização e culto exerceu uma influência
profunda e duradoura na cultura evangélica brasileira. A venda de
Bíblias e Novos Testamentos de casa em casa, a distribuição de folhetos,
as conversas com amigos e colegas de trabalho sobre Cristo e os
convites para participar dos cultos domésticos diários foram formas
não-agressivas e criativas que permitiram a inserção da nova opção
religiosa num período em que ainda existiam diversas restrições legais à
propaganda protestante.
Erasmo Braga, o grande líder e estudioso
do protestantismo brasileiro, nutria grande admiração pela obra
congregacional no Brasil, entendendo que refletia a influência do
não-conformismo inglês e do espírito independente dos puritanos.
Fascinava-o em especial o caráter eminentemente nacional do novo
movimento. Escrevendo em 1931, Braga afirmou: “Sua característica
peculiar é o fato de que se trata de um movimento inteiramente nacional,
que nunca esteve eclesiasticamente sujeito ou foi financeiramente
dependente de qualquer sociedade estrangeira e representa na América
Latina uma tendência muito significativa, a saber, uma resposta de
mentes ibero-americanas ao Evangelho que não pode ser atribuída à
atividade missionária estrangeira”.[45] Kalley tornou-se um marco na
história das missões e um pioneiro reverenciado no vasto mundo de língua
portuguesa. Dezenas de homens e mulheres influenciados por ele
divulgaram a mensagem cristã e plantaram igrejas na Ilha da Madeira, nas
Antilhas, nos Estados Unidos, em Portugal e no Brasil. Seu trabalho
continua a produzir frutos no presente. Pessoas que pouco sabem a seu
respeito são herdeiras do seu ministério e seguem as suas pegadas. A sua
coragem, heroísmo e fidelidade continuam a inspirar os cristãos
evangélicos – reformados e não-reformados – no cumprimento da tarefa
inacabada.
English Abstract
The Scottish medical missionary Robert R.
Kalley (1809-1888) holds an honorable place in the Protestant
missionary movement, having been a prominent pioneer in
Portuguese-speaking countries. Struggling against immense difficulties
and occasional deadly opposition, he was instrumental to the
establishment of Presbyterianism in the island of Madeira (1839) and
Congregationalism in Brazil (1855). He also influenced
Portuguese-speaking churches in the Caribbean, Portugal, and the United
States. His wisdom, courage, and commitment are an inspiration to the
new generations of evangelical Christians. The author shows how Kalley
left his native Scotland and ended up in the isolated Atlantic island of
Madeira. He then proceeds to describe how Kalley’s medical and
evangelistic efforts produced both an increasing number of converts and
violent outbursts of religious intolerance. While thousands of
“Calvinists” fled the island for their lives and eventually settled in
the Antilles and the United States, Kalley spent a few years in Malta
and Palestine. After the death of his first wife, he married a refined
and talented Englishwoman, Sarah P. Wilson, member of a prominent
Congregational family. Eventually the Kalleys went to Brazil, where they
started the first native Protestant church in the history of that
country. The author finishes his analysis by pointing out some
interesting connections between Kalley and the Presbyterian missions in
Brazil and makes a few remarks about his personality, theological ideas,
and lasting influence on Brazilian Protestantism.
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[1] Uma versão resumida deste artigo, sob
o título “Robert Kalley: De goede engelse dokter” (Robert Kalley: O bom
doutor inglês) foi publicada na revista holandesa Terdege (23/10/2002),
28-29, 31.
[2] A Igreja da Escócia foi criada por
ato do Parlamento em 1560, graças os esforços do reformador John Knox
(c.1514-1572). Conhecida popularmente como “Kirk”, ela tem sido sempre
presbiteriana, à exceção de dois períodos de episcopalismo modificado na
época dos reis Stuart (século 17).
[3] A principal fonte dos dados
históricos/biográficos deste artigo é Michael P. Testa, “The Apostle of
Madeira: Dr. Robert Reid Kalley”, Journal of Presbyterian History 42/3
(Setembro 1964), 175-197, e 42/4 (Dezembro 1964), 244-271. A versão
eletrônica do texto pode ser encontrada em:
http://freepages.genealogy.rootsweb.com/~klondike98/Exiles/apostle/Apostle%20of%20Madeira.rtf .
Um estudo mais recente é a obra de William B. Forsyth, The Wolf from
Scotland: The Story of Robert Reid Kalley, Pioneer Missionary (1988). Um
texto bastante sucinto pode ser encontrado em Ruth A. Tucker, “Até aos
Confins da Terra”. Uma História Biográfica das Missões Cristãs, 2ª ed.
(São Paulo: Vida Nova, 1996), 503-507.
[4] A Sociedade Missionária de Londres,
fundada em 1795, foi uma conseqüência do avivamento evangélico inglês do
século 18 e, mais especificamente, dos esforços de William Carey
(1761-1834), que resultaram no movimento missionário protestante do
século 19. A sociedade era de caráter interdenominacional, mas seus
fundos e pessoal procediam majoritariamente dos congregacionais. Kenneth
S. Latourette, A History of Christianity, 2 vols., Vol. II: Reformation
to the Present (Nova York: HarperCollins, 1975), 1033.
[5] Quanto à Ata da Comissão de Exame,
ver Testa, “The Apostle of Madeira”, I:177. Quanto à ordenação, ver
Esboço Histórico da Escola Dominical da Igreja Evangélica Fluminense:
1855-1932 (Rio de Janeiro, 1932), 27, 30s. O diploma de ordenação,
escrito em latim, declara: “Por esta carta, fazemos saber a todos que o
Sr. Robert Reid Kalley, versado em ciências e letras, e aprovado pela
piedade da sua vida para o sacrossanto ministério cristão, foi ordenado,
tendo sido oferecidas preces com imposição de mãos, por nós... (seguem
os nomes dos seis ministros). Londres, 18 de julho de 1839 A.D.”
[6] Os discípulos de Kalley na Ilha da
Madeira eram regularmente denominados “calvinistas”, o que aponta não
tanto para as convicções teológicas do missionário quanto para as suas
raízes escocesas e presbiterianas.
[7] Uma obra importante escrita por uma
testemunha ocular é: João Fernandes Dagama, Perseguição dos Calvinistas
da Madeira: Subsídios para a História das Perseguições Religiosas (Rio
Claro: Tipografia Magalhães e Gerlach, 1896). O Rev. Dagama (1830-1906),
um dos conversos de Kalley, foi missionário e pastor presbiteriano no
Brasil por mais de trinta anos.
[8] Ver Richard P. McBrien, Os Papas – Os
Pontífices: de São Pedro a João Paulo II (São Paulo: Loyola, 2000),
343-345, e Eamon Duffy, Santos e Pecadores: História dos Papas (São
Paulo: Cosac & Naify, 1998), 218-221.
[9] No seu valioso estudo, Michael Testa
destaca a extraordinária contribuição do Rev. Hewitson para a obra
ligada a Kalley, tanto na Ilha da Madeira como no Caribe. Ver “The
Apostle of Madeira”, I:187-193; II:248s.
[10] Testa, “The Apostle of Madeira”, I:191s.
[11] No dia 25 de janeiro de 1999, em
uma cerimônia ecumênica que contou com a presença de representantes de
todas as confissões cristãs existentes na Ilha da Madeira, o bispo de
Funchal, D. Teodoro de Faria, se penitenciou em nome da igreja católica
pelos episódios de intolerância contra os calvinistas ocorridos mais de
um século e meio antes. Ver
http://www.presbiterianismo.com.br/Historia/Funchal.htm.
[12] O rigor do clima dessa região levou
alguns dos imigrantes a se dirigirem para Massachusetts e Nova Jersey.
Émile-G. Léonard, O Protestantismo Brasileiro: Estudo de Eclesiologia e
História Social, 2ª ed. (Rio de Janeiro e São Paulo: JUERP/ASTE, 1981),
50.
[13] Testa, “The Apostle of Madeira”, II:256.
[14] Para maiores informações sobre a família
de Sarah Kalley, ver Carl Joseph Hahn, História do Culto Protestante no
Brasil (São Paulo: ASTE, 1989), 138s (e notas).
[15] Os Irmãos de Plymouth surgiram como
um protesto contra a frieza, formalismo e sectarismo existentes nas
igrejas evangélicas no início do século 19. Embora o movimento tenha
iniciado em Dublin, Irlanda, a primeira congregação foi criada em
Plymouth, Inglaterra, em 1831, sendo seu líder mais influente John
Nelson Darby (1800-1882), o criador do dispensacionalismo. O grupo
caracterizava-se por sua simplicidade de culto, profunda devoção, zelo
evangelístico e interesse por estudos proféticos. Em 1848 houve um cisma
que resultou em dois grupos: Irmãos Abertos e Irmãos Exclusivos
(Darbistas). Ver J. D. Douglas, ed., The New International Dictionary of
the Christian Church (Grand Rapids: Zondervan, 1978), 789.
[16] Segundo Hahn, Sarah havia ido com o pai
ao Egito e à Síria para acompanhar o irmão, que veio a morrer de
tuberculose em Beirute, sendo sepultado no Cemitério de Estrangeiros. A
primeira esposa de Kalley morrera alguns dias antes e eles se
encontraram no cemitério. História do Culto Protestante no Brasil, 149
(nota 385).
[17] Para valiosas informações sobre
Fletcher, ver David Gueiros Vieira, O Protestantismo, a Maçonaria e a
Questão Religiosa no Brasil, 2ª ed. (Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 1980), 61-94.
[18] Entre 1842 e 1846, quando ainda na
Ilha da Madeira, o Rev. Kalley escreveu sete hinos (“Louvemos todos ao
Pai do céu”, “Todos que na terra moram”, “O meu fiel Pastor”, “Jesus
Cristo já morreu”, “Alma! escuta ao bom Senhor!”, “Cá sofremos aflição” e
“Tem compaixão de mim, Senhor”). Esses provavelmente foram os primeiros
hinos evangélicos cantados no Brasil, sendo posteriormente incorporados
ao hinário Salmos e Hinos. Henriqueta Rosa Fernandes Braga, Música
Sacra Evangélica no Brasil: Contribuição à sua História (Rio de Janeiro:
Livraria Kosmos Editora, 1961), 109.
[19] Duncan Alexander Reily, História Documental do Protestantismo no Brasil (São Paulo: ASTE, 1993), 103.
[20] Os metodistas já haviam feito um
trabalho inicial no Rio de Janeiro (1835-1841), sob a liderança dos
Revs. Justin Spaulding e Daniel Parish Kidder, trabalho esse que teve de
ser interrompido e não deixou frutos em termos de conversos e igrejas.
Kidder tornou-se um personagem célebre na história religiosa do Brasil,
tendo sido o primeiro missionário protestante a viajar extensamente pelo
país, distribuindo as Escrituras e fazendo contatos com políticos e
intelectuais. Registrou as suas experiências na importante obra
Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil, publicada
originalmente em 1845, em Filadélfia.
[21] Ver a narrativa detalhada dos fatos em Reily, História Documental do Protestantismo no Brasil, 104-108.
[22] Esboço Histórico da Escola Dominical, 70s.
[23] Léonard, O Protestantismo Brasileiro, 52-54.
[24] Sobre o controvertido Holden, ver o
rico material reunido por Vieira, Protestantismo, Maçonaria e Questão
Religiosa, 163-207.
[25] A obra de Kalley no Brasil é
descrita de modo sucinto em Esboço Histórico da Escola Dominical da
Igreja Evangélica Fluminense e com maiores detalhes em uma obra de seu
filho adotivo João Gomes da Rocha, Lembranças do Passado, 3 vols. (Rio
de Janeiro: Centro Brasileiro de Publicidade, 1941-1946). Um 4º volume
foi publicado em 1957 pelo periódico O Cristão.
[26] Braga, Música Sacra Evangélica no
Brasil, 119. As igrejas que se organizaram como fruto do trabalho da
UESA se filiaram a dois grupos distintos com base na forma adotada para o
batismo: União das Igrejas Evangélicas Congregacionais (aspersão) e
Igreja Cristã Evangélica do Brasil (imersão). Os dois grupos se uniram
em 1942, surgindo a União das Igrejas Evangélicas Congregacionais e
Cristãs do Brasil. Quanto às dificuldades encontradas pelos
congregacionais brasileiros para definir a sua identidade
denominacional, ver Reily, História Documental do Protestantismo no
Brasil, 219-222.
[27] Em Springfield, Illinois, os
imigrantes organizaram a Primeira Igreja Presbiteriana Portuguesa (1849)
e a Segunda Igreja Presbiteriana Portuguesa (1858). Em Jacksonville, no
mesmo estado, também surgiram duas igrejas com os mesmos nomes, em 1849
e 1855. A razão da existência de duas igrejas em cada cidade foi a
controvérsia então existente no presbiterianismo americano entre “Velha
Escola” e “Nova Escola”.
[28] As ligações entre presbiterianos e
congregacionais eram freqüentes. Um exemplo bem conhecido foi o Plano de
União (1801-1852), um acordo de cooperação feito entre as duas igrejas
para a evangelização da fronteira norte-americana.
[29] Ashbel G. Simonton, O Diário de
Simonton: 1852-1866, trad. D. R. Moraes Barros, 2ª ed. (São Paulo: Casa
Editora Presbiteriana, 2002), 127 (31/08/1859). Simonton achou que não
precisava ser tão cauteloso quanto aos seus objetivos e métodos
evangelísticos como recomendava o missionário mais idoso.
[30] Ibid., 134-135 (19/12/1859). Alguns
meses depois, Simonton passou duas semanas em Petrópolis, participando
todas as tardes dos cultos realizadas na residência dos Kalley, que o
convidaram a ficar com eles no final da sua estadia. Ver anotações de
11/04/1860.
[31] Igreja Presbiteriana do Rio de
Janeiro: Primeiro Centenário, 1862-1962 (Rio de Janeiro, 1962), 9-11. No
dia 25 de junho, em assembléia realizada na Igreja Fluminense, a
comunidade presbiteriana elegeu o seu novo pastor, Rev. Álvaro Reis.
[32] As datas referem-se ao período em que eles trabalharam como missionários da PCUSA no Brasil.
[33] Merece um estudo especial a presença maciça de elementos portugueses nos primórdios da obra presbiteriana no Brasil.
[34] Alderi Souza de Matos, “Os Pioneiros
Presbiterianos do Brasil (1859-1900): Missionários, Pastores e Leigos
do Século 19” (obra a ser publicada pela Editora Cultura Cristã).
[35] Hahn, História do Culto Protestante no Brasil, 148.
[36] Diz o artigo: “O Batismo com água
foi ordenado por nosso Senhor Jesus Cristo como figura do Batismo
verdadeiro e eficaz, feito pelo Salvador quando envia o Espírito Santo
para regenerar o pecador. Pela recepção do Batismo com água, a pessoa
declara que aceita os termos do pacto em que Deus assegura aos crentes
as bênçãos da salvação”. Reily entende que essa rejeição implícita do
batismo infantil distingue os congregacionais brasileiros dos demais
congregacionais do mundo. Ver História Documental do Protestantismo no
Brasil, 113s, 158 (n. 212).
[37] Testa, “The Apostle of Madeira”,
II:268, citando Eduardo H. Moreira, Vidas Convergentes (Lisboa, 1958).
Testa conclui que, caso isso pudesse ser comprovado, representaria um
afastamento significativo da posição anterior de Kalley quanto ao
batismo por imersão. Ver Rocha, Lembranças do Passado, vol. 2, p. 37.
[38] Hahn, História do Culto Protestante no Brasil, 143s.
[39] Ibid., 153. Segundo Hahn, Kalley
tornou-se mais propenso ao legalismo no Brasil do que havia sido na Ilha
da Madeira, onde possuía uma sortida adega de vinho. No Rio, chegou a
proibir seus adeptos de alugarem uma carruagem no domingo para irem a um
funeral. Ibid., 139. É importante lembrar que o “sabatarianismo”
(observância estrita do dia do Senhor segundo Êxodo 20.8) foi
característico de todos os primeiros evangélicos brasileiros.
[40] O casal Kalley, principalmente D.
Sarah, produziu o primeiro e mais amplamente usado hinário evangélico em
português, Salmos e Hinos. A 1ª edição foi impressa pela Tipografia
Laemmert, no Rio de Janeiro, em 1861, e continha 18 salmos e 32 hinos,
totalizando 50 cânticos. Seguiram-se novas edições em 1865 (83
cânticos), 1868 (100 cânticos), 1873 (138 cânticos), 1877 (180 cânticos)
e muitas outras. A primeira edição de hinos com música (Música Sacra
Arranjada para Quatro Vozes) foi impressa em 1868, em Leipzig. Ver
Braga, Música Sacra Evangélica no Brasil, 111-115, 125-129.
[41] Testa, “The Apostle of Madeira”, II:267.
[42] Antonio Gouvêa Mendonça, O Celeste
Porvir: A Inserção do Protestantismo no Brasil, 2nd ed. (São Paulo:
ASTE, 1995), 176s. Mendonça opina que essas ênfases estão presentes no
clássico de Bunyan, O Peregrino, que Kalley traduziu e publicou.
[43] Ver Reily, História Documental do
Protestantismo no Brasil, 113. A Igreja Fluminense aceitou formalmente
os 27 artigos escritos por Kalley, acrescidos de um outro sobre a
natureza de Deus (atual artigo 4), no dia 2 de julho de 1876. Em
novembro de 1880, o governo imperial sancionou tanto a base doutrinária
da igreja quanto os seus estatutos (Artigos Orgânicos).
[44] Hahn, História do Culto Protestante no Brasil, 143s.
[45] Erasmo Braga e Kenneth G. Grubb, The
Republic of Brazil: A Survey of the Religious Situation (Londres: World
Dominion Press, 1932), 57. Para reflexões adicionais sobre a vida,
pensamento e práticas pastorais de Kalley, ver as obras de Douglas
Nassif Cardoso, Robert Reid Kalley: Médico, Missionário e Profeta (São
Bernardo do Campo, São Paulo, 2001) e Práticas Pastorais do Pioneiro na
Evangelização do Brasil e de Portugal (São Bernardo do Campo, 2002).